Angel de la Guarda

Ontem foi dia de viagem. Primeiro de autocarro e depois de avião.

Preparada para passar 4 horas fechada no autocarro, não evitei estar atenta ao que se passava dois bancos à minha frente.

Uma rapariga despedia-se do pai, que estava visivelmente nervoso com a viagem. Tudo em espanhol, que consegui perceber. A cena afligiu-me e, como é típico, fiquei na dúvida entre dizer alguma coisa ou ficar na minha e assumir que não era nada comigo.

Mas como alguém que já passou por muitas despedidas do tipo, não consegui ficar quieta e calada. Levantei-me e perguntei à rapariga se podia ajudar, já que eu sabia onde era a paragem. Falei inglês, ela perguntou se eu falava sueco (em sueco), ao que eu respondi na mesma língua que sim e acrescentei num espanhol arranhado que era portuguesa. Foram 10 segundos de conversa com três línguas à mistura, não sei como é que o meu cérebro não fez curto circuito.

Não obstante, ela agradeceu-me fervorosamente, acrescentou que o pai falava português/brasileiro e eu acedi a fazer companhia ao pai até ao aeroporto. Foi um compromisso de quatro horas, que passaram depressa.

Com 59 anos de existência (o dobro da minha), Edmundo tem 4 filhos espalhados pelo mundo, enquanto ele é o único a viver ainda no Uruguai, a trabalhar como contabilista. A ex-mulher e a filha mais nova vivem em Gotemburgo, um dos rapazes estuda engenharia em Estocolmo e outro está a fazer doutoramento em literatura ibero-americana em Nova Orleãs. A filha mais velha, casou-se no ínicio do mês em Barcelona e foi lá que esteve a família reunida. Antes de nos cruzarmos, viajou pela europa com a companheira actual, que já percebe alguma coisa de inglês. “Antes bastava saber falar francês, a língua central da europa era o francês, que eu sei, mas agora é o inglês e eu tenho de aprender.”

Durante a viagem aproveitou para ligar aos filhos pelo whassap. A conversa em espanhol não foi mistério para mim: disse-lhes que tinha encontrado “una muchachita portuguesa” e que eu era o seu anjo da guarda, “que me sinto como en casa”.

Perguntou-me se acreditava em deus. Fugi à questão com medo de o desiludir. Fez a mesma questão à filha mais velha quando lhe contou que alguém o ia ajudar a chegar ao aeroporto sem problemas, “ahora ja lo crees en deus?” ela respondeu que acreditava no karma, que ele tinha sido gentil com o mundo e que o mundo estava a retribuir. Disse-lhe que concordava com a filha.

Com medo que eu não tivesse percebido e quiçá por querer ter a certeza que ficava dito, voltou a assegurar-me que eu era o seu anjo da guarda. Ofereceu-me um pequeno cartão com a história de um santo que ele tinha na carteira: Bento Álvaro del Portillo. Pediu-me para não o perder e eu guardei-o entre a capa e o telemóvel. Ainda lá está.

Disse-me que era fantástico perceber o meu português, porque um dia tentou ver um filme em português de portugal e não conseguiu, teve de pôr legendas. Contou-me que gosta de Fernando Pessoa. Recitou-me um ou dois versos de um poema de Alberto Caeiro, sobre “o rio da minha aldeia”. Acho que era este. Disse-me que gostava de Roberto Carlos e Vinicius de Moraes e que queria que o Uruguai fosse parte do Brasil. Explicou-me que tenciona aprender inglês e que o filho que mora em Nova Orleãs, sendo professor de inglês e espanhol prometeu ensiná-lo, mas não tem tempo.

Falou-me da cidade Colónia de Sacramento, no sul do Uruguai, um lugar que conserva ainda a influência da colonização pelos portugueses. Que há uma rua, chamada Rua dos Suspiros, se mantém exactamente como era dantes.

Durante toda a conversa percebi a importância que dava à educação dos filhos. Queria-os a todos formados. Explicou que desde sempre, lá em casa fez questão de ter a parabólica virada para o Brasil, de forma a apanhar a tv brasileira. Assim, ouviam futebol brasileiro, novelas e outros programas e aprenderam a língua. Pelo que percebi, todos na família sabiam falar pelo menos três línguas. E no entanto ali estava eu, a sentir-me tão importante por poder fazer a ponte entre o sueco e o inglês para alguém que não conhecia estas línguas e aquela zona geográfica.

Eu, que nessa manhã tinha pedido ao Oscar para me escrever num papelinho os passos para entrar no aeroporto e fazer um desenho com o esquema – já que mudaram a paragem do autocarro. Eu, cheia de medo de me perder só porque ia ter de sair numa paragem que já tinha visto várias vezes mas onde nunca tinha saído. E a verdade é que quando saímos na dita paragem, tal era a minha concentração em guiar o meu protegido que não precisei se olhar para o papelinho. Papelinho esse, que continua no bolso de trás das minhas calças.

Foi uma viagem de sorrisos. Ele estava feliz por se sentir menos nervoso, eu estava feliz por poder ajudar. A certa altura, confessou-me que achou os suecos frios, que os latinos respondem quando alguém diz “bom dia” e que em Estocolmo sentiu falta disso.

Fui explicando partes da minha vida também, ele ficou particularmente surpreendido com a minha idade e com o facto de eu ainda não estar noiva, não estando estes dois relacionados. Garantiu-me que não há melhor coisa para um pai do que ter os filhos por perto, quando soube que eu ia a caminho para encontrar os meus. Mas na maioria do tempo eu quis ouvir, mais do que falar. Curiosa, caça-histórias, chamem-me o que quiserem.

Depois de o guiar para o terminal certo e de o ajudar a ligar o telemóvel à internet do aeroporto, despedi-me. Quis confiar que a partir dali ele ia conseguir encontrar o seu caminho. Tinha viajado por Londres, Barcelona e Paris não muito tempo antes, confiei que os aeroportos já não o assustavam. De qualquer forma sabia que ele tinha a app do google translate no telemóvel, “esta era a minha arma se não tivesse encontrado você” disse ao apontar para o símbolo no ecrã.

Segui o meu caminho pelo resto do dia, mas não consegui evitar estar atenta à informação do voo que ele ia apanhar. Atrasou uma meia hora, mas acredito que esse tenha sido o único precalço. Fiquei com o nome dele para o poder adicionar no Facebook. Quando tiver tempo  vou-lhe perguntar se correu tudo bem e sugerir a app Duolingo para ele começar a aprender inglês, enquanto o filho não lhe dá umas aulas.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s