Isto não era para ser sobre etiquetas

É-me muito desconfortável estar triste. Não gosto. É como usar uma camisola daquelas que picam. É como ter a etiqueta do pijama a arranhar-me o pescoço.

Sabem o que faço às etiquetas? Arranco-as. Na maioria das vezes, não tenho pachorra para tirar a camisola e cortá-las com cuidado. Então faço um exercício mental: “gosto assim tanto desta peça de roupa, que não possa viver com uns buraquinhos causados pela violência que estou prestes a cometer?” Tenho notado que nos últimos tempos a resposta é sempre negativa, por isso… puxo. Com força. E acabo com aquele toque incomodativo na minha pele.

Queria poder fazer isso com estados de espírito. Arrancar etiquetas tem um quê de libertador e gostava de poder ter uma sensação similar, a nivel mental. Agarrar a tristeza com as duas mãos e puxar com força, amachucar e deitar fora. E mais. O que eu queria mesmo era poder esticar os braços e agarrar as “etiquetas” das outras pessoas e arrancá-las pelas raízes feitas de linhas de algodão ou poliester.

Dizem-me que estar triste é natural, que faz parte do ser humano. Bem sei, mas ter mãos, vontade e força suficiente para arrancar etiquetas também. Porque é que não podemos aplicar o método nesta condição? Dizem que temos de decidir ser felizes e dou por mim a pensar com muita força “agora já não vou estar triste, acabou-se. Agora vou ser feliz, vou agradecer por tudo o que me acontece e ver sempre as coisas boas. Vá. Agora é que é. Concentração.” Querem saber o que é que acontece? Nada.

 Tenho lido em tantos lugares que a felicidade é uma decisão nossa. Tenho tentado tomar essa decisão activamente, mas não é fácil. Então tento encontrar outras formas de ser feliz. Por exemplo, fico feliz se consigo fazer alguem sorrir, ajudar alguém ou facilitar qualquer tarefa que esteja a incomodar outra pessoa. O meu truque para ser feliz? Apostar nos chamados “random acts of kindness”. Sempre os pratiquei mas nunca de forma muito auto-consciente. Mas agora tento retirar deles algo para mim. Hoje, no eléctrico, dei o meu lugar a uma mãe para que a família com 2 miúdos se pudesse sentar toda junta. Ela sorriu, nem agradeceu nem nada (e eu juro que o meu sueco foi correcto!), mas foi o suficiente para eu me sentir melhor. Sinto-me ligeiramente egoísta por estar a sugar destes momentos algo para mim. Mas hey, não andam para aí a dizer que a felicidade vem de nós e que é a nossa decisão? Esta é a minha decisão. Sorry, not sorry.

Bom, mas não podendo arrancar a tristeza, a angústia, a saudade… o que for como se arranca uma etiqueta, o que nos resta? Aceitar, lidar? É muito giro dar estas respostas e não explicar o como. Cabe a cada um descobrir o como. Eu ainda não sei bem se já descobri o meu como.

Mas isto não era para ser sobre etiquetas. Era para ser sobre um poema.

Fica para amanhã.

 

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