Crónicas de um avião atrasado

Se há coisa que gosto de fazer quando viajo sozinha é people-watching. Não me interpretem mal. Não sou fã de multidões, há quem diga que tenho alergia a pessoas e tudo… mas, ao mesmo tempo, tenho um certo fascínio por elas. O que resulta invariavelmente em sessões de observação mais ou menos discretas. 

Ora bem, aeroportos e aviões são das melhores culturas para observar a espécie humana. Não podemos dizer que seja o seu habitat natural, mas é um dos habitats onde se movimenta. 

Hoje apanhei dois aviões. Enquanto esperava pelo primeiro, atrasado, comecei a observar os espécimens à minha volta. Vou-vos então apresentar quatro casos curiosos que me captaram a atenção, ao longo do percurso. 

1. A família de duas filhas. 

Ainda à espera do primeiro avião, em Gotemburgo, reparei numa família: o pai de boné e estilo desportivo, a mãe com uns ténis da moda; novinhos, com uma miúda de 6,7 anos e um bebé de colo (que, vim a descobrir, era também uma menina). E não me venham pr’aqui dizer que se consegue ver logo se um bebé é menina ou menino. A pessoa que diz que consegue distinguir o género de uma mini-pessoa feita de bochechas e roupas fofas ao primeiro relance, está a mentir. Mas não nos desviemos do assunto. 

Reparei neles porque a miúda mais velha estava às gargalhadas enquanto o pai lhe fazia cócegas. (Acho que nunca tinha escrito a palavra cócegas. Cócegas. É gira.) 

Mal sabia eu que se iam sentar no meu lugar no avião. Tinha eu acabado de entrar e estava a tentar instalar-me quando a mãe apontou para mim e pediu (em sueco) ao marido/namorado/companheiro/pai das crianças para me perguntar alguma coisa. Eu interrompi e disse que falava sueco (tsc tsc tsc), mas fiquei a pensar que aquela é a minha figura quando peço ao O. para perguntar coisas a alguém – só espero ser ligeiramente mais discreta. 

Ela, aliviada, procedeu com o pedido para trocar de lugar comigo, para que eles se sentassem juntos. O lugar dela era logo na fila atrás, sem stress. 

Agora. Um dado importante: poderei ser considerada uma pessoa social na maioria das situações, mas a verdade é que por vezes prova-se que tenho a capacidade social de uma batata. Dito isto, desta vez acho que não correu mal, salvo um ou outro pormenor. Pormenor esse, por exemplo que aconteceu quando informei a mulherzinha de que sabia falar sueco. Toquei-lhe no ombro. Um gesto que me foi super natural na altura e que me fez verde de vergonha assim que o meu cérebro processou as sinapses. Os suecos, por norma não gostam que lhes invadam o espaço pessoal (eu também não) e no entanto, só me faltou abraçá-la e dar-lhe uma palmadinha nas costas para celebrar o facto de falarmos a mesma língua (mais ou menos). 

Tirando isso, o voo correu bem, a pequena quase não chorou. Mas não pensem que era por que era uma mini-pessoa espectacular. Foi  porque a pobre da mamã passou quase o voo todo de pé a abanar-se com ela ao colo. 

2. O par de religiosos.

Cruzei-me com este par de espécimens na porta de embarque do primeiro voo. Um rapaz nos seus 20’s acompanhado de um rapaz nos seus 30’s, um caucasiano e o outro africano. Chamaram-me à atenção porque falavam alto e estavam sentados ao lado da fila de embarque, pelo tinha vista privilegiada para o ecrã do telemóvel de um deles. 

Na imagem, uma mensagem em capslock da qual consegui ler “HERE COMES THE PATH TO SALVATION”. Ainda não tinha tido tempo para achar aquilo estranho quando o mais novo se espreguiça e exclama “this life only takes you to the first heaven, I’m going to the third heaven!”

“Esta é nova!” – pensei. De todas as religiões e credos pelas quais passei numa tinha ouvido falar em mais do que um céu. Já de orelhas em pé, antes de embarcar ainda vi o mesmo rapaz a ser excessivamente simpático com alguém que lhe perguntou se um dos lugares nos bancos estava livre. 

Não me perguntem como, mas a verdade é que eu os deixei sentados no banco na porta de embarque e quando entrei no avião eles já lá estavam, sentados e acomodados. Magia? Transladação espiritual entre-céus?

A verdade é que por muito fanáticos que pareçam, ao passar no corredor ouvi o mais velho a dizer “it’s true man, people don’t appreciate the gift of this life that we are given”. O que não deixa de ser verdade, muitas vezes.

Sem julgamentos, mas acho fantástico conseguirem atingir um nível de conversação tão profundo enquanto apanham um avião. Ou isso, ou o que eles fumaram era uma droga altamente filosófica. Esclarecimento precisa-se.

3.O grupo de taxistas

Passemos então ao segundo avião, também este ligeiramente atrasado. Eu na fila, à frente de uma rapariga que juro-que-acho-que-conheço-de-algum-lado-mas-não-sei-de-onde, sem reparar num senhor de meia-idade posicionado ao lado da fila, rodeado de uma série de malas. 

Nisto, chegam mais quatro senhores de meia idade, já a gritar antes ainda de chegarem ao amigo, que quase me atropelam para se enfiarem todos na fila à minha frente. Quase pisei um alemão atrás de mim, a quem disse estupidamente “desculpe” em vez de “sorry”. Lá estava a minha batata social a vir ao de cima. 

Depois de convenientemente enxovalharem o amigo “que já estava a ficar aflito porque não ia conseguir levar aquelas malas todas”, seguiram na fila a recordar um episódio da noite anterior em que – estes mauzões – quase (QUASE!) chamaram a polícia. Não fosse a diferença linguística, tinha sido um ai-jesus, porque eles é que eram os maiores da aldeia deles. Foi no meio da conversa que descobri que eram taxistas. E foi passados uns segundos que descobri que estes mauzões que falavam tão alto estavam sentados na minha fila. 

Durante a viagem ainda tive o prazer de ver um deles armar-se em esperto com a hospedeira, quando lhe disse que não falava inglês nem percebia nada, isto tudo em inglês. Mas ela não anda nisto desde ontem e pô-lo no lugar num instantinho. Não sem antes ouvir um dos amiguinhos a dizer “está também sabe-la toda!” (Pelo menos conjugou bem o verbo). Só espero que ela perceba português suficiente para topar estes caramelos. 

4. O apaixonado xxl. 

Chegámos ao quarto espécimen e ao meu favorito. Não queria acabar esta crónica de forma azeda ou jocosa. Por isso, vou dar o meu melhor com este caso, que na verdade até me comoveu. 

Há uma linha muito ténue que separa o people-watching da coscuvilhice. E quando há o ecrã de um telemóvel ao alcance do meu olhar, a coscuvilheira que há em mim salta cá para fora e não consegue evitar tentar perceber todos os pormenores da vida daquela pessoa. Chamem-lhe a curiosidade dos estranhos. Mas também, deixem-me clarificar que também não vou a extremos para ver coisas que não me dizem respeito, mas se está à minha frente… 

Portanto, estando sentada à janela, este senhor estava sentado no meio. Um senhor, digamos, de tamanho grande. Daquele tipo de tamanho que compra lugar na fila da saída de emergência para ter mais espaço para as pernas (e para o resto do corpanzil). Eu, pequenina, ao lado dele, encostada. Ele a segurar o telemóvel à sua frente, bem mais à frente do que a minha linha periférica de visão. Ele que me perdoe a invasão de privacidade, mas estava a escrever em inglês e ainda por cima tinha um daqueles telemóveis com ecrã curvo nos lados. A sério, para que é que isso serve na realidade? É que a meu ver é só mesmo para as outras pessoas poderem olhar melhor. Porque não vejo outra utilidade dessa característica que não o facilitamento da actividade cusca.

Mas a história é querida, um nadinha creepy, mas querida. Se não, vejam. Ele tinha o whatsapp aberto, uma conversa com uma mulher – também ela aparentava ser de meia-idade (já vos digo como é que vi!), numa troca de mensagens amorosas. A última mensagem dela era uma foto de um pormenor de uma bata médica – pelo que percebi ele tinha-lhe oferecido um presente e ela adorou. 
Atenção que para vos estar aqui a contar isto precisei de manter a minha concentração muito tempo, que este senhor escrevia as coisas a uma média de uma palavra por 3 minutos. Mas, aviões atrasados dão nestas coisas e neste atrasámos mais quando já estávamos dentro do dito cujo. 

Emojis para aqui e emojis para ali, a conversa ficou estranha muito rapidamente.
Ele mencionou que a conseguia ver na câmera ao pé da porta. Eu fiquei intrigada e percebi o que se passava quando ele abriu uma app que ligava à imagem da tal câmera. Uma live cam – de segurança – para a casa. Pois bem, nunca pensei que pudesse ser usada para namorar, mas uma pessoa está sempre a aprender. 
Poucos segundos depois, apareceu a amada no ecrã, a mandar beijinhos e a dançar. Ele controlava a câmera com a app e moveu-a para baixo e para cima. Depois voltaram a conversar no whatsapp. Ele disse-lhe que não a conseguia ouvir, perguntou se ela tinha visto a câmara a mexer. Ela disse que sim e que isso tinha sido creepy. Foi aqui que fiquei ligeiramente aliviada por haver alguma normalidade. Não deixa de ser estranho haver aquela câmera e alguém ter pensado que pode ser usada para “comunicar” com a amada em casa. Sim, porque lá no meio consegui ver que ele tinha uma série de vídeos gravados na app da câmera dela a dançar e afins. 
Mas, não obstante a creepyness da câmera, o resto da conversa entre eles foi querida e terminou com ele a dizer “I have to go now, we are about to take off. I love you”. Fora a quantidade perturbadora de emojis, deixou-me a pensar. Tudo o resto na vida dele pode ser estranho para mim, mas se aquele avião caísse, a última coisa que ele tinha dito a alguém foi “I love you”. E a última coisa que eu tinha dito a alguém foi “já estou em Amesterdão, o próximo voo parte às 21:10. Bjo”. Lá está, a batata. 

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